Diário da Senhorita Médica na Guerra — Capítulo 19: A Ordem de Ficar para Trás
Que emoções os humanos sentem diante da morte? O comandante Garback deu a ordem cruel ao veterano Gray sem hesitar. Fique aqui e morra.
— Entendido, comandante.
Meu veterano respondeu com despreocupação ao comandante. Nunca esquecerei a expressão do veterano Gray naquele momento. ...Ele estava chorando.
O veterano Gray olhou para frente e saudou o comandante Garback, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Certo. Touri, Rodri, sigam-me.
— Eh, ah...!
— O inimigo não perderá o momento em que recuarmos. Sairemos quando as bases próximas estiverem em combate. Corram ao meu comando.
O comandante Garback nos chamou para a parede traseira da trincheira. Ele nem olha para o veterano Gray, a quem acabara de ordenar que morresse.
— Hmm... vá, Touri.
— Veterano...
...Encarei incrédula o veterano Gray que havia recebido aquela ordem cruel. Ele sentou-se de pernas cruzadas, segurando quietamente a arma com o cano fixo à frente. Talvez naquele momento eu também estivesse chorando.
— Ah, isso mesmo, comandante. Tenho uma carta inacabada para minha família nas minhas coisas.
— Entendo.
— Desculpe incomodá-lo, mas poderia anexá-la junto com meu aviso de falecimento?
— Entendido.
Embora o veterano Gray derramasse lágrimas, nunca deixou isso transparecer em sua postura.
— E por último. Obrigado por tudo, comandante.
— É.
Ele se comportou com a mesma casualidade de sempre. Tenho certeza de que fazia isso de propósito para não nos abalar, novatos.
— ...Ei, comandante Garback.
— O que foi, Rodri?
— Ainda tenho energia sobrando.
Depois de encarar o veterano Gray por um tempo, Rodri falou.
— Posso carregar o veterano Gray nas costas como meu escudo pessoal?
— De jeito nenhum.
— ...Por quê?
— Porque aumentaria suas chances de morrer.
A sugestão de Rodri foi bem surpreendente. Sua proposta visava claramente ajudar o veterano Gray.
Ele não tem muita resistência, mas tenta parecer durão oferecendo-se para carregar o veterano Gray nas costas.
— Não é bem assim...
— Rejeitado.
— ...
Com a proposta firmemente rejeitada, Rodri encarou o comandante com expressão insatisfeita. Em seu rosto, quase dava para ver a frustração transbordando.
— De que adiantaria ajudar o Gray? Esse cara perdeu a perna e não consegue mais lutar.
— ...
...Não participei muito de cavar trincheiras, então não sei, mas talvez Rodri se desse bem com o veterano Gray. Provavelmente sentia um forte desejo de ajudá-lo, mesmo que isso significasse se esforçar além do limite.
— Esqueça de mim, Rodri. Deixa pra lá; você só vai levar uma surra quando voltar.
— Mas...
No fim, Rodri foi repreendido pelo próprio veterano Gray e apenas se virou. Talvez também estivesse chorando.
— Ah, isso mesmo, Rodri. Vou te dar um último conselho.
— ...O quê?
— É melhor parar com esses comentários grosseiros que você fica soltando para todo mundo.
Enquanto o comandante Garback aguardava quietamente uma oportunidade de escapar, o veterano Gray falou com Rodri. Era a mesma expressão calorosa e gentil de sempre.
— Você se parece muito comigo, Rodri. Provavelmente pensamos da mesma forma.
— ...
— Sabe, ouvi dizer que você se dava bem com os caras da sua unidade anterior. Perguntei a um dos sobreviventes.
Ouvindo o que o veterano Gray tinha a dizer, o rosto de Rodri mudou de cor.
Então havia uma unidade com a qual Rodri se dava bem. Talvez na unidade anterior ele não ficasse soltando insultos.
— É difícil, não é? Quando pessoas com quem você era próximo são mortas.
— Claro...
— Você odeia tanto o inimigo que quer matá-lo, certo?
— Claro!!!
...Os sobreviventes de uma unidade dizimada seriam redistribuídos para preencher vagas em vários pelotões. O fato de Rodri ter sido transferido para o Pelotão Garback provavelmente significava que sua unidade anterior...
— Não é por isso que você fica soltando insultos e provocando todo mundo?
— Isso é —
Depois de dizer isso, o veterano Gray acrescentou:
— Se vai morrer de qualquer forma, achou que seria mais fácil não se aproximar de ninguém, certo?
Ele começou a acariciar gentilmente a cabeça de Rodri, que também derramava lágrimas.
— Mas você não pode viver assim. Você é gentil demais.
— ...
— Você tem prestado atenção nos camaradas desde que foi designado aqui. Está aterrorizado em perder outro camarada. Já chega; não é seu trabalho se preocupar com isso.
Rodri ouviu as palavras do veterano Gray mordendo o lábio.
— Será que Rodri...
— Você deveria ser grata a ele, Touri. Esse cara ficava despejando insultos em você, mas continuava te protegendo. É triste demais alguém assim tentar lutar sozinho.
Ouvindo isso, percebi muitas coisas. Rodri disse que foi coincidência, mas já me salvou do perigo duas vezes. E sempre foi no timing mais perfeito.
— Não é verdade...
— Então por que sugeriu me carregar e fugir?
Rodri é igual a mim. Agiu com frieza para evitar se apegar demais emocionalmente aos camaradas, mas ainda assim incapaz de deixar de se importar.
Assim como instintivamente tentei carregar o veterano Gray, tenho certeza de que ele instintivamente interveio para me ajudar. No fundo, provavelmente queria ser odiado por todos e ficar sozinho.
— Não é verdade... eu...
— Seja mais honesto e não se encolha. Lamente a morte dos camaradas, mas tenha força para seguir em frente. Se sua saúde mental piorar ainda mais, isso levará diretamente à sua morte.
Bem quando o veterano Gray terminou de falar:
— Agora! Saiam! Corram com toda a força!!!
O comandante Garback rugiu sua ordem.
***
Às pressas, saí rastejando da trincheira com Rodri. Então entramos no escudo formado pelo comandante e saímos correndo.
— Veterano Gray! Eu —
— Se tem tempo para falar, mexa os pés, idiota!
Sou a mais lenta entre nós. Movi freneticamente as pernas e corri em direção à segurança da trincheira à frente o mais rápido possível.
— Eu... não quero mais ter que ser protegida por outra pessoa!!
Antes que pudesse terminar essas palavras, tiros ensurdecedores ecoaram da trincheira onde estava o veterano Gray. O inimigo deve ter visto que escapamos e começou a nos perseguir.
— Woooooooo!!!
Um grito de batalha ecoa por trás. Era a voz rude, mas calorosa e gentil, do veterano Gray.
— Ohhh... ohhhh, oooooooh!!
Mas essa voz começou a vacilar em segundos.
— ...O... Oh...
Eventualmente, foi cortada junto com o som de uma explosão.
Corri olhando as costas do comandante, engolindo soluços. A voz que ele fazia era fraca. Era o grito angustiado de um soldado mortalmente ferido com sangue entrando nos pulmões.
Mesmo se eu corresse agora até o veterano Gray e o curasse com poder mágico completo, seria impossível salvá-lo. O veterano Gray nos comprou tempo conforme ordenado pelo comandante. Para proteger nossas vidas, lutou desesperadamente por aqueles que o abandonaram e fugiram.
O tempo que sacrificou a vida para nos dar foram apenas alguns segundos.
— Só mais um pouco...
Mas nesses poucos segundos, conseguimos avançar significativamente. Depois disso, pulamos com sucesso na trincheira segura na retaguarda.
Em algum lugar ao longe, ouviu-se um grito de morte doloroso.
— M-mãe...
O último e fraco grito de morte do veterano Gray... Era uma voz chamando por sua mãe.
***
— Comandante, usou o soldado Gray como peão sacrificável?!
Depois de recuarmos com sucesso para a trincheira segura, Rodri e eu ficamos em silêncio por cerca de uma hora.
— Sim.
— Por que não encerrou a batalha garantindo esta linha? Não havia como romper com nossas forças restantes!
— Sim, havia. Se houvesse mais dez de mim.
O veterano Murrue, que foi atingido ao saltar da trincheira, já estava morto.
Isso leva a contagem de mortos de hoje a três.
— Se ao menos tivesse se abstido de avançar!!
Por outro lado, o cabo Verdi, a quem tratei, parecia estar a salvo. Quando acordou e compreendeu a situação, ficou furioso com o comandante Garback.
— Foi claramente um avanço imprudente. Duvido de suas qualificações como comandante.
— É mesmo?
— Vou reportar este incidente. Um comandante de linha de frente não deveria simplesmente avançar descuidadamente!
— Faça o que quiser.
O cabo Verdi repreendeu duramente seu superior, o sargento Garback. Escutei em silêncio a troca entre o cabo Verdi e o comandante Garback.
Minhas emoções estavam entorpecidas e não sentia nada em relação à discussão deles.
— Sinto muito, se ao menos eu não tivesse sido atingido e perdido a consciência... Soldado Rodri, médica Touri, vocês dois estão ilesos?
— É...
Eventualmente, o cabo Verdi virou as costas ao comandante e veio em nossa direção para se desculpar. Parecia genuinamente arrependido.
— Gostaria de ouvir mais sobre a situação de vocês dois.
— Entendido...
— Qual era a situação de danos e munição restante quando o comandante deu a ordem de avançar? E quais foram as últimas palavras do soldado de primeira classe Gray? Se não se importarem, poderiam me contar?
— ...
— Pretendo reportar isso também aos superiores.
Quando questionada por um superior, devo dar relatórios precisos e verdadeiros. No entanto, não tinha energia para responder à pergunta do cabo em detalhes.
Naquela hora, eu era como uma casca vazia.
— ...Ele foi legal.
Foi Rodri quem respondeu à pergunta do cabo Verdi.
— Eh? O quê?
— O veterano Gray foi legal. Só isso.
Rodri falou com voz tensa, punhos cerrados com sangue escorrendo dos lábios.
Foi a única vez que o vi chorar tão intensamente.
— Ele não fugiu como eu. Sabia que se se aproximar de alguém acaba se machucando, mas não fugiu e apoiou alguém como eu até o fim.
— ...Soldado Rodri?
— Aquela pessoa morreu compreendendo plenamente a situação. Disse "Obrigado" ao comandante Garback e partiu com um sorriso.
Depois de dizer isso, Rodri de repente agarrou o cabo Verdi pela gola.
O cabo Verdi ficou chocado com aquele ato escandaloso.
— Cabo, por favor não faça relatórios que manchem a honra do veterano Gray! Não faça relatórios dizendo que foi forçado a ficar para trás pelo comandante Garback, ou que morreu contra a vontade! Isso seria um insul