Diário da Senhorita Médica na Guerra — Capítulo 23: A Primeira Vez do Soldado Gray

— Ah.

O solo estava lamacento por causa da chuva de ontem. Deixei uma marca na parede de terra ao enterrar distraidamente meu punho nela.

Os suportes da trincheira estavam completamente cobertos de lama. Sangue revestia os pedaços podres e quebrados de madeira. Já faz cerca de três meses desde que vim para o campo de batalha.

Cerca da metade das pessoas que se alistaram ao mesmo tempo que eu já se foi. Em seu lugar, alguns novatos se juntaram. Um garoto insolente levou um tiro na cabeça e morreu no primeiro dia de alistamento.

Gradualmente estava sendo menos cuidado. Até agora, só precisava seguir atrás do meu comandante de pelotão. Mas recentemente ele tem me mandado para lugares perigosos.

— Tem uma colina à frente. Não consigo ver o acampamento inimigo do outro lado da trincheira. Você, rasteje cerca de dez metros e verifique se o inimigo está vindo.

Seguindo as ordens do meu comandante de pelotão, saí rastejando da trincheira e observei as linhas inimigas. Moscas zuniam pelo campo de batalha. Grudavam-se nos meus olhos e nariz, esfregando as patas dianteiras.

Quando olhei de lado, havia um cara que, assim como eu, havia saído rastejando da trincheira e se movia de bruços.

— Comandante de pelotão. Não parece que o inimigo está vindo.

— Certo. Fique de olho aí por um tempo e me avise se o inimigo vier.

Em meio ao zumbido desagradável dos insetos, continuei encarando o acampamento inimigo, ao lado dos corpos infestados de ovos dos meus camaradas.

***

— Gray, você é excelente.

Naquela noite, um soldado veterano disse isso e me elogiou depois que terminei uma missão de reconhecimento.

— Você tem a quantidade certa de medo, coragem e estupidez. Tem todas as qualidades necessárias para sobreviver no campo de batalha.

— É mesmo...

— Baixa a guarda e morre se não tiver medo. Congela e morre se não tiver coragem. E tenta fugir de um lugar como este se não for estúpido.

O veterano disse isso e riu alegremente.

— Depois disso, é só questão de quanto você aproveita o campo de batalha. Não é melhor se divertir do que passar por maus bocados antes de morrer?

— ...O que exatamente devo aproveitar num lugar como este?

— Bem, para começar, tente aproveitar matar o inimigo.

Bang! O veterano fez um gesto de atirar no inimigo.

Naquele momento, ele realmente parecia estar se divertindo.

— Você pode acabar com a vida daqueles malditos soldados sabatianos se acertar um tiro limpo. Isso não te deixa animado?

— Está me dizendo para me animar matando?

— Claro! Lutar e vencer é uma das alegrias mais primitivas de um ser vivo. O que poderia ser mais empolgante?

É, provavelmente há muitos soldados que sentem prazer em matar o inimigo. Mas algo nisso simplesmente não me agradava.

— Nem consigo explicar a emoção do momento em que você estoura o cérebro de alguém. É tipo: "Peguei! Isso aí!"

— Ainda sou bem ruim de mira. Não consigo acertá-los.

— Então treine bastante. Matar o inimigo também significa proteger seus camaradas.

O que o veterano disse não estava errado.

Ainda assim, sentia uma espécie de aversão em realmente atirar em alguém e matá-lo. Lutei na linha de frente durante os três meses em que estou destacado. Até atirei muitas vezes.

Mas nunca tive a experiência de acertar uma pessoa.

— Matar pessoas é realmente tão divertido?

— É, não há emoção melhor que essa.

Bem, isso provavelmente era só porque eu era ruim. Tendo sido designado como soldado, não tinha hesitação em matar o inimigo.

Só não tinha certeza se algum dia encontraria prazer nisso.

***

Bem, essa preocupação acabou sendo infundada. Aconteceu durante um assalto quando seguia atrás do comandante de pelotão, avançando para garantir a trincheira inimiga.

— Cuidado! Tem um ali, Gray!

Notei um soldado inimigo escondido atrás de sacos de areia no fim da trincheira em que acabara de entrar.

Disparei reflexivamente uma bala em direção ao saco de areia. Quase no mesmo instante, o soldado sabatiano escondido ali espiou brevemente para cá. Foi um acerto limpo.

O soldado sabatiano que acabara de levantar a cabeça caiu para trás sem forças com o tiro. E então, uma fonte de sangue jorrou de sua testa como um jato de mijo.

— ...

— Oh! Conseguiu, Gray!

Foi assim que matei um inimigo.

Para o bem ou para o mal, tirei a vida de um ser humano. Pensei que sentiria mais culpa, ou talvez até entraria em pânico.

— É! Consegui!

No entanto, o que completamente encheu meu coração foi a sensação de realização por atirar e matar o inimigo.

Era uma sensação de superioridade; de que havia acabado com a vida daquele cara. Foi aí que entendi do que meu veterano falava. Realmente era bom.

***

— Vamos fazer uma festa hoje à noite! Bebidas por minha conta, Gray!

— Ah, obrigado!

— Agora você é um soldado de verdade!

Isto é o que significa ser soldado. Era uma euforia intensa.

Uma clara sensação de realização, como depois de uma caçada bem-sucedida. De modo algum era o tipo de emoção que alguém deveria sentir depois de matar alguém. Mas, se eu hesitasse, se o inimigo atirasse primeiro, teria acabado daquele jeito.

Não há necessidade de sentir culpa. Afinal, estamos na mesma posição. Ele também tinha uma arma, e mirava tirar minha vida.

Aquele cara era só mais fraco. Porque meu oponente era fraco, sobrevivi e ele morreu.

— Ahahaha!! Me sinto ótimo!

Seria isso o que significava aproveitar o campo de batalha?

— Ahahahahaha!!!

Com certeza tornou as coisas mais fáceis. Pude aceitar o fato de que, se morresse, não teria jeito.

Senti tanto prazer em matar o inimigo. Se fosse morto pelo inimigo, seria simplesmente karma. Se gostasse de matar, até o medo da morte diminuiria.

Na medida certa de covarde, corajoso e estúpido. Talvez seja isso que um soldado realmente precisa. Senti que finalmente me tornei um verdadeiro soldado.

***

Aconteceu no dia seguinte.

— Gah...!

— Veterano!

Meu veterano foi atingido no peito por um soldado sabatiano e morreu. Foi um assalto incrível, uma demonstração esmagadora de números.

Lançaram um ataque feroz com várias vezes a força das nossas defesas. O comandante de pelotão lutou bravamente, mas não tivemos escolha a não ser recuar com as bases ao redor caindo. Não houve últimas palavras.

Simplesmente levou um tiro no peito, desabou e morreu antes de ser pisoteado pelo soldado sabatiano. Segui o comandante de pelotão e corri em direção às linhas de retaguarda, sem olhar para trás o veterano caído.

— ■■■!!!■■♪

Justo quando olhei de volta para a trincheira... Notei que o soldado sabatiano que o matou parecia extremamente feliz.

***

— Ei, Gray, você está bem?

— Estou bem...

Estava como uma casca vazia desde que meu veterano morreu. Alguém tão experiente podia morrer tão facilmente?

— Anima, cara. Você não estava empolgado ontem?

— ...Desculpe. Só não me sinto assim agora.

— Certo, vem comigo então.

Ontem, fiquei genuinamente empolgado por ter atirado e matado um inimigo. Mas hoje estava abatido por ter um veterano morto da mesma forma.

Aquele soldado que matei pode ter tido novatos que o admiravam. Pode ter tido família querida ou filhos. No momento em que atirei nele, não pensei em nada disso.

Quão hipócrita e frágil sou eu?

— É melhor não pensar nisso.

— Eh?

— Aquele cara era alguém que amava matar. Matou tantos soldados sabatianos com alegria. Por isso tenho certeza de que partiu satisfeito.

Provavelmente aceitou como karma.

Vendo-me deprimido, um soldado veterano veio me confortar desta vez. Pegou minha mão e tentou me levar para algum lugar.

— Acha que consegue continuar gostando de matar como ele?

— ...Não. Ontem, por um momento pensei que talvez pudesse.

— Você não nasceu para isso. Age casual, mas no fundo é do tipo sério. Deveria procurar outras formas de se divertir.

— Outras formas de me divertir...?

O soldado veterano era o batedor Allen. Com um sorriso safado, disse:

— Vamos comprar mulheres, Gray!!

Ele me levou a um lugar ridículo.

— Claro, matar o inimigo pode ser uma alegria primitiva como ser vivo. Mas isto é o prazer máximo de estar vivo!

E assim, comprei uma mulher com o dinheiro do veterano Allen.

***

— Você está com uma cara ótima, Gray!

Hahahaha! Minha cabeça estava turva, e uma voz patética escapou de mim. Ah, que tempo maravilhoso foi aquele.

— Como foi, Gray? O que te empolga mais: matar inimigos ou dormir com mulheres?

— ...Mulheres.

— Sabia. Senti que você era igual a mim.

Que tipo de pessoa joga um soldado de luto num bordel?

Parte de mim estava exasperada. Mas ao mesmo tempo, senti profunda gratidão.

— É, isso com certeza combina mais comigo.

O prazer de flertar com uma mulher combinava mais comigo do que a emoção de matar alguém. Se tivesse que escolher entre o direito de matar inimigos todo dia ou o direito de dormir com uma mulher todo dia, escolheria o segundo sem hesitar.

— Vamos nos dar bem daqui pra frente, Gray. Acho que formaremos um bom par.

— Obrigado. Não de um jeito estranho, certo?

— Obviamente não. Te tratei porque gosto de mulheres.

...Aquele outro veterano me disse para aproveitar o campo de batalha. Não precisa ser só sobre o prazer de matar.

Contanto que encontre algo para aproveitar, basta. Por isso vou me divertir no campo de batalha de formas eróticas e continuar vivendo.

— Ah, um conselho. Se por algum milagre uma soldada for designada para nossa unidade, não vá flertar descuidadamente com ela.

— Hã? Por quê?

— Veteranos têm prioridade. Se quiser dar em cima, peça minha permissão primeiro.

— Hah... Você é terrível.

Mesmo com essa conversa, a ideia de uma soldada ser destacada para a linha de frente era basicamente impensável.

— Mas sério, não há garotas fofas na linha de frente. Só gorilas musculosos...

— O que tem de errado nisso? Pessoalmente, gosto de mulheres musculosas.

Ainda assim, se aquele dia algum dia chegasse...

Gray imaginou que certamente levaria a bons momentos.