Todos vocês renasceram. Se você não tem uma esposa adorável, não é demais lhe dar uma tigela — Capítulo 1: Renascimento acidental

Os arranha-céus, furando as nuvens, erguiam-se como um poema grandioso — uma interpretação da cacofonia da cidade e de sua solidão profunda.

Envoltas pela noite, suas paredes de cortina de vidro brilhante agiam como colossais espelhos de gelo, refratando uma luz fria e inabalável. Pareciam um réquiem silencioso, ecoando pelo céu noturno tranquilo.

Li Linghan estava diante da enorme janela do chão ao teto. Lágrimas cristalinas desciam por suas bochechas frias; a última gota brilhava intensamente sob o luar.

Era 29 de setembro de 2023 — o Festival do Meio-Outono. Um dia que deveria ser de reunões em família; ainda assim, Li Linghan estava sozinho no Hilton Hotel cinco estrelas.

Era um hotel de luxo onde ele nunca havia colocado os pés. O lobby resplandecente, com a decoração folheada a ouro, era um testemunho de opulência e prestígio.

Depois de muita hesitação, ele finalmente tomara a decisão: passaria aquele feriado especial ali. Não por nenhum grande propósito, mas simplesmente para celebrar o próprio aniversário.

Embora os quartos do Hilton ficassem principalmente entre o 32º e o 53º andar, Li Linghan escolhera especificamente o 36º, acreditando que o número representava os anos de sua breve vida.

Ele só esperava que a própria existência pudesse, como aqueles edifícios altíssimos, subir cada vez mais alto.

Momentos antes, ao olhar para os pedestres apressados lá embaixo, uma onda de emoção inexplicável havia surgido nele.

Aquelas pessoas eram como formigas — atarefadas, labutando, e ainda assim alheias ao momento em que a desgraça poderia golpeá-las, reduzindo-as a meros fios de fumaça sob os pés de outrem.

Ele inspirou fundo; um frio de melancolia assentou-se em seu coração.

Aquelas vidas, aquelas existências formigueiras, eram tão minúsculas e frágeis neste mundo; um único sopro de vento parecia bastar para lançá-las ao esquecimento.

De repente, os alarmes soaram. As luzes de todos os andares se apagaram, e a vida do prédio mergulhou no caos.

— Fogo! Tem um incêndio!

O coração de Li Linghan apertou. Ele só viera pela vista — como podia ter tropeçado em algo tão absurdo?

Ele abriu a porta de uma vez, pretendendo descer às pressas em busca de segurança. Na escuridão, estava completamente desorientado, incapaz de achar a escada de emergência. Os elevadores estavam fora de questão — usá-los durante um apagão era o movimento mais perigoso possível.

Depois de correr em circuito frenético, Li Linghan percebeu que não havia para onde ir. Com o corredor engolido por fumaça densa, não havia escape. Ele se meteu em um quarto qualquer, determinado a se salvar.

Correu até o banheiro, pegou uma toalha de banho e a encharcou na torneira. Jogou a toalha ensopada sobre os ombros e, com um pano úmido sobre a boca e o nariz, avançou de volta em direção à porta.

Ao abri-la, as chamas invadiram como um dragão de fogo, forçando-o a recuar. Ele bateu a porta e usou um edredom molhado para vedar as frestas.

Mas o fogo era feroz demais; o edredom não conteria as chamas por muito tempo.

Li Linghan correu até a janela e viu o colchão de salvamento já inflado pelos bombeiros lá embaixo. Cerrou os dentes. Será que o céu realmente quer que eu parta assim?

Sem pensar mais, agarrou um extintor pesado do canto. Estava frio, urgente e carregado de consequência.

Levou-o consigo, o passo firme, marchando em direção à janela do chão ao teto.

Não quero morrer tão jovem. Ele girou com toda a força. O estalo nítido do impacto ecoou pelo quarto vazio, seguido pelo estilhaçar do vidro.

Os cacos caíram como meteoros, refletindo a desolação e a determinação em seus olhos.

Ele olhou para o colchão recém-inflado e se atirou de cabeça.

Cair do 36º andar sobre um colchão — não era diferente de um bungee jump que deu errado.

— Ah! Eu não quero morrer! Lá vou eu!

Ele cerrrou os olhos, gritando no vazio. O vento assobiando ao lado dos ouvidos soava como a narração da história de sua vida.

Enquanto o corpo despencava, sentiu a puxada da gravidade e, ao mesmo tempo, uma estranha liberação da alma.

Naquele instante, pareceu ver a vida passada: as alegrias, as tristezas, os momentos de amar e ser amado — tudo passando como um carrossel.

Por fim, com um baque ensurdecedor, o corpo esmagou-se contra o chão.

O som, como o primeiro raio de luz antes do amanhecer, atravessou o céu noturno escuro, anunciando sua partida.

O colchão de salvamento estava perfeitamente intacto; ele errou o alvo por completo, caindo em cheio no concreto frio ao lado.

Naquele momento, uma dor de cabeça violenta arrancou Li Linghan do sono, como se uma força rasgasse sua consciência.

Ele se ergueu de um salto, embora tudo ao redor parecesse estranhamente alienígena.

Esquadrinhou o ambiente, atordoado ao se achar de volta na cama do Hilton Hotel.

Estendeu a mão até o celular na mesa de cabeceira; o horário marcava 21h.

Estava perplexo. O que acabara de viver parecera tão real — o incêndio que ocorrera logo após as 22h.

Que diabos? Poderia ele realmente prever os acontecimentos de uma hora no futuro através de um sonho?

Decidiu aproveitar o tempo: tomou banho, vestiu roupas frescas e se arrumou. Quando se postou diante da janela do chão ao teto mais uma vez, sentiu uma sensação inquietante de déjà vu.

O que estava acontecendo? Tentou recordar seus atos, sentindo que eram idênticos aos do sonho, mas a mente continuava turva.

Ele se sacudiu — era só um pesadelo, com certeza. Com as luzes da cidade cintilando tão lindamente lá fora, como um incêndio poderia irromper?

Não sentiu nenhum sinal de reencarnação.

Estava completamente alheio ao fato de que, em uma hora, o fogo chegaria pontualmente.

Segurou o celular, tirando fotos da bela vista noturna, e pegou distraidamente o bolo da lua que trouxera. Aproveitar um bolo da lua enquanto contemplava a paisagem no Festival do Meio-Outono era, afinal, um prazer único.

Ao mesmo tempo, em uma vila urbana, uma moça também comia bolo da lua enquanto observava a lua.

Seu nome era Xiao Can. Ela administrava uma casa lotérica e, naquele momento, estava encostada num poste de luz na frente da loja, esperando clientes — embora, por causa do feriado, o movimento fosse escasso.

Xiao Can era alguns anos mais nova que Li Linghan. Apesar de ter marido e a própria lojinha, o marido era um vadio agressivo que a abandonara naquele feriado importante para ir beber num bar.

Embora estivesse sozinha, sentia um alívio; pelo menos naquela noite, o homem que a agredia não estava ali para lhe pôr a mão.

Ela se encostou no poste, vestindo um vestido justo que realçava perfeitamente sua silhueta.

O vestido era de um azul profundo e nobre. A barra única chamava a atenção e, combinada com os saltos, a fazia parecer ainda mais alta.

Sob o luar, ela era absolutamente hipnotizante — uma verdadeira beldade.

A casa lotérica dela ficava bem abaixo do prédio onde Li Linghan alugava.

Li Linghan ainda comia o bolo da lua quando os alarmes soaram de novo. Tudo parecia tão familiar. Embora sentisse um desconforto profundo, não teve tempo de ponderar; seguiu a mesma rotina, buscando as escadas antes de se esconder no quarto.

Tudo se desenrolou exatamente como antes. Ele quebrou a janela do chão ao teto, mirando o colchão, e saltou.