Todos vocês renasceram. Se você não tem uma esposa adorável, não é demais lhe dar uma tigela — Capítulo 27: Substituindo forças e fraquezas

Há todo tipo de jeito de trapacear no mahjong; qualquer um que tenha visto os filmes sabe disso.

Alguns usam dicas verbais, alguns usam sinais de mão, e outros dependem de gadgets de alta tecnologia como óculos ou fones.

Li Linghan viu através dos sinais de mão que o casal usava no instante. O tio ensinara aquela técnica — no mundo das Técnicas de Jogo, é conhecida como o “Chicote das Nove Seções”.

Mas guardou pra si. Não sabia o relacionamento deles com a Senhorita, e não queria convidar confusão desnecessária. Além disso, não viera ali pra jogar em primeiro lugar.

Enquanto Li Linghan terminava o chá e se preparava para ir, o homem sentado em frente à Senhorita de repente atendeu uma ligação.

— Desculpem, pessoal, meu camarada sofreu um acidente de carro. Preciso ir ver ele. Minhas desculpas…

Se fosse emergência genuína ou só uma desculpa porque estava perdendo demais, ele não jogava mais.

A Mulher de Branco, porém, estava claramente insatisfeita. Resmungou:

— Se não aguenta perder, não senta na mesa. Só jogamos poucas rodadas e já está fugindo? Sinceramente…

Ela tinha razão; não muito tempo passara desde que Li Linghan primeiro avistara a Senhorita.

— Eu não estava falando com você. Do que você está choramingando? Eu acabei de chegar, e você é a única ganhando. Não basta? Quer o quê, que eu só te entregue meu dinheiro?

A resposta afiada da Senhorita deixou a Mulher de Branco sem fala.

Então, avistando Li Linghan servindo chá, a Senhorita perguntou:

— Ei, senhor. Já que nos encontramos assim, se sabe jogar, por que não se junta a nós por algumas rodadas?

Li Linghan entendeu o valor de se fazer de difícil, então fingiu ignorância.

— Eu sei o básico, mas… — Li Linghan bateu nos bolsos, sinalizando que não tinha dinheiro consigo.

Um verdadeiro especialista sempre permanece humilde e minimiza a própria habilidade — especialmente porque Li Linghan tinha uma agenda bem específica para se aproximar da Senhorita.

— É só isso? Se perder, fica por minha conta. Só se senta.

A Senhorita puxou dois maços grossos de dinheiro da bolsa e os jogou no assento vazio.

Li Linghan fez parecer que estava sendo coagido, e os outros dois não deram atenção.

Como jogavam com peças manuais, era o ambiente perfeito para trapacear.

Enquanto Li Linghan se sentava, a Mulher de Branco se inclinou, tentando ser provocativa.

— Esse gato é tão tenro. Tem planos pra esta noite? Quer uma garotinha como eu te fazer companhia?

O rosto de Li Linghan ficou vermelho vivo. Vivera uma vida quieta, honesta e obediente; nunca pusera o pé num lugar assim.

A reação constrangedora quebrou a tensão, fazendo os outros rirem. Tornou os dois trapaceiros ainda mais confiantes — ele era claramente um novato. Aquilo ia ser um pagamento fácil.

Uma vez as peças postas, Li Linghan jogou com calma, apegando-se às regras padrão. Mesmo com a expertise, não podia começar a trapacear de imediato; aquela era a regra cardinal do jogo.

O casal tratou Li Linghan como um caixa eletrônico, ignorando-o por completo. Começaram a sinalizar com mais frequência, os movimentos ficando cada vez mais descarados.

Em poucas rodadas, só restavam algumas notas do dinheiro do lado de Li Linghan.

Contudo, Li Linghan manteve sob controle. Arrancou algumas pequenas vitórias; não podia se dar ao luxo de perder tudo, ou o jogo acabaria.

Conforme a noite avançava — jogavam havia horas — todo mundo começou a ficar com fome.

Quando foi a vez da Senhorita ser o dealer, ela gritou empolgada:

— Estou morrendo de fome. Uma última rodada. Ganhe ou perca, fica com o que tiver. Vamos encerrar e fazemos de novo outra hora.

Li Linghan percebeu que aquela era a chance. Tinha de agir.

Queria deixar uma boa impressão na Senhorita pra garantir oportunidades futuras. Não conseguia alcançar o Irmão Hu, mas lidar com a filha era uma abordagem “indireta” sólida.

Desta vez, usou a técnica de “Trocar Vigas por Pilares”. Não era o truque mais avançado, mas era mais do que o bastante para aquela gente.

“Trocar Vigas por Pilares” envolvia trocar as peças de forma encoberta enquanto ninguém prestava atenção.

Não importava quem estivesse distribuindo, contanto que montassem as peças à mão, Li Linghan podia garantir que a Senhorita recebesse uma mão contendo ao menos quatro conjuntos de uma sequência pura e flush.

O lançamento dos dados a favoreceu, e ela estendeu a mão para as peças à frente. Antes que pudesse agarrá-las, Li Linghan empurrou as peças para frente. Para um observador, parecia perfeitamente normal, mas pra ele era um movimento de precisão.

Naquele breve momento, trocara a sequência flush organizada para a posição de onde a Senhorita tiraria.

Quando ela pegou as peças, o queixo quase caiu no chão. Em todos os anos jogando, só vira mãos assim em filmes como Deus dos Apostadores ou O Santo dos Apostadores. Ver na vida real era inédito.

A Senhorita estava tão atônita que sequer sabia o que descartar.

— Qual é? Com medo do “senhor” que eu levo pra casa esta noite?

A Mulher de Branco ainda estava descarada, inclinando-se e exibindo os atributos de um jeito pensado para distrair.

— Não me diga que eu acertei. Este não é realmente o momento pra pensar em homens, é?

A Senhorita não respondeu. Ergueu o olhar para Li Linghan. Ele piscou lentamente, um sorriso fraco nos lábios.

Ela olhou de volta para os outros e gaguejou:

— Meu Deus… Eu, eu, eu ganhei! Uma vitória natural! Uma mão perfeita, pura, flush, e tudo em trios!

Qualquer um que joga mahjong sabe que uma “vitória natural” (ou Tian Hu) é como um “slam” num jogo de cartas; você ganha no momento em que recebe as peças, sem precisar descartar. E uma vitória natural pura e flush? As chances eram cerca de uma em trezentos mil. Era virtualmente impossível!

Os outros dois a encararam, absolutamente incrédulos. Achavam que ela estava brincando.

— Senhorita, não se pode zoar assim na mesa. Se estiver mentindo, tem de pagar a nós três!

A Mulher de Branco claramente não acreditava que alguém que não soubesse nada de trapaça pudesse arrancar uma vitória natural perfeita e flush.

A Senhorita começou a deitar as peças, uma a uma: dois de pontos, três de pontos, quatro de pontos, cinco de pontos… até oito de pontos!

— Impossível! Isso é absolutamente impossível! — gritou o homem, a voz ecoando a incredulidade vista em vídeos virais.

Mas as peças estavam bem ali na frente deles. Não importava o quão de perto inspecionavam, as peças eram reais. Não podiam simplesmente ter mudado magicamente diante dos olhos.

De acordo com as regras locais, uma mão pura e flush com sete pares era 168 vezes a base, mais 32 vezes pela vitória natural, e duas pela falta de terminais — um total de 202 vezes a aposta!

Cada um deles tinha de pagar mais de quarenta mil. De uma vez, a Senhorita recuperara tudo o que perdera e limpava outros quarenta mil de lucro puro.

Os dois trapaceiros se olharam, atônitos. Passaram a tarde inteira sinalizando e usando os códigos secretos pra nada.

A Mulher de Branco estreitou os olhos, ainda suspeita, e se virou para olhar Li Linghan.

— Ei, gato. Você não teria por acaso alguns truques na manga, teria?

Li Linghan sentiu um solavanco, mas manteve a compostura. Será que escapara? Ou subestimara aqueles dois? Aquilo não deveria ter sido possível.

Mesmo sem usar as habilidades há muito tempo, a técnica era impecável.