Todos vocês renasceram. Se você não tem uma esposa adorável, não é demais lhe dar uma tigela — Capítulo 28: Percepções
Ele praticara sob o tio muitas vezes, e no auge até o tio não conseguia pegá-lo.
Nunca revelara aquelas habilidades a ninguém; para quem não conhecia o histórico dele, era impossível ver como trocava as peças.
— Você está trabalhando de laranja?
O homem cuspiu as palavras frias e ameaçadoras, realmente tomando Li Linghan por um mero garçom.
— Vocês estão exagerando demais! Eu que o puxei, só o encontrei uma vez. Vocês realmente acham que eu preciso contratar um laranja? Pareço alguém curto desse tipo de trocado?
A explicação da Senhorita deixou os dois homens sem fala.
Relutantes, quitaram as dívidas. Originalmente pretendiam que aquela fosse a última rodada, pensando talvez que a Senhorita só tivera um golpe de sorte cega — afinal, uma “mão celestial” no mahjong era uma raridade extrema.
Insistiram em continuar jogando, alegando que um dealer só desce depois que o turno acaba.
Li Linghan viu que não estavam prontos para desistir, então acedeu. Continuou alimentando a Senhorita com mãos vencedoras — todas modestas, claro, porque até um fantasma não acreditaria se ela ganhasse toda mão com início perfeito.
A sessão terminou com os dois trapaceiros resmungando derrotados. Não só perderam todos os ganhos, como cada um largou mais de vinte mil dos próprios bolsos.
Depois que partiram, restando só Li Linghan e a Senhorita, ele pousou os poucos mil na mesa dela.
— Sinto muito mesmo por isso. Não recuperei a aposta original que a senhorita me deu, e ainda lhe devo uma rodada…
A Senhorita não respondeu. Circulou Li Linghan, os olhos cheios de curiosidade e confusão. Aquele homem definitivamente não era personagem simples, e ainda assim ela não conseguia cravar bem o que o tornava tão estranho.
— Você joga mahjong com frequência?
Li Linghan vira o tio perseguido por credores vezes e vezes, acabando por ser cortado até a morte. Como poderia sequer sonhar em seguir aquele mesmo caminho?
— Não, esta é minha primeira vez, sério. Joguei com a família quando era criança, então só sei as regras básicas.
— Heh… — A Senhorita escarneceu, claramente sem acreditar.
— Vou te perguntar uma coisa, e quero uma resposta honesta.
— Pode falar.
— Por que estava tentando se aproximar de mim?
— Hmm? — Li Linghan não esperava uma pergunta tão direta; a mente acelerou para fabricar um motivo.
— Pelo que sei, você tem frequentado vários Fliperamas do meu pai recentemente. Certamente não fez tudo isso só por um joguinho casual de mahjong comigo, certo?
Li Linghan ficou sem palavras. Não era à toa que podiam monopolizar cada Fliperama da cidade — ele fora rastreado e investigado. Subestimara as pessoas que trabalhavam sob o Irmão Hu.
— Então, você está “carregando suprimentos”?
— Hmm? — Li Linghan congelou. “Carregar suprimentos” significava que ele conhecia Técnicas de Jogo — que era um naipeiro.
Li Linghan assumira que aquela garota era só uma socialite rica típica que amava brincar, nunca imaginando que seria fluente na gíria do ofício.
Li Linghan balançou a cabeça.
— Não sei do que está falando. Estamos todos só aqui por um pouco de diversão…
A Senhorita pressionou.
— Você não precisa guardar segredos de mim. Se uma “mão celestial” foi só sorte, então e as rodadas posteriores? Você sempre adivinhava exatamente o que eu precisava pra pong ou kong, me alimentando as peças. Você realmente acha que existem tantas coincidências?
— E considerando que aqueles dois trabalhavam juntos pra trapacear, você realmente acha que eu acreditaria que você não sabia o que estava acontecendo?
Li Linghan calculou completamente errado aquela garota estilosa de rabinhos. Não era só uma herdeira mimada e arrogante que vivera por emoção — era afiada e observadora.
Mas se ela via eles trapaceando, por que jogar com eles a tarde inteira? Li Linghan não conseguia penetrar o raciocínio dela.
— Acredite no que quiser! — Li Linghan manteve a expressão fria e não ofereceu mais explicação.
A Senhorita, porém, ficou ainda mais interessada naquele “homem de meia-idade”. Todo mundo na vida dela normalmente girava em torno dela, tornando a frieza daquele homem uma raridade.
Não se irritou, apenas rindo enquanto dizia:
— Você é a única pessoa na rede inteira de Fliperamas da cidade que ousa falar comigo assim. Deve saber quem eu sou. Com uma palavra minha, meu pai poderia fazer você sumir deste lugar sem deixar rastros. Não tem medo?
Li Linghan de súbito agarrou o pulso dela e a empurrou contra a parede.
— O que está fazendo?
Li Linghan encarou a mão dela, esbelta, lisa, como jade, ocasionalmente traçando-a com o polegar. O movimento era incrivelmente provocativo.
— Que belas mãos. Você possui as verdadeiras mãos de uma profissional, e ainda assim…
— E ainda assim o quê?
— É uma pena que você não seja uma naipeira de verdade.
A confusão da Senhorita mudou para um olhar de aceitação calma.
— Anda, eu te levo a algum lugar divertido…
Li Linghan soltou e a seguiu. Não fazia ideia do que ela planejava, nem por que passara a tarde entretendo aqueles dois trapaceiros, mas sabia melhor do que perguntar — curiosidade mata o gato.
De volta ao salão principal, O Grandão avistou Li Linghan à distância e acenou.
Li Linghan gesticulou um “tchau” e mimou uma ligação. O Grandão entendeu perfeitamente.
O Grandão observou Li Linghan seguir a Senhorita e deu um sorriso significativo.
Saíram e entraram num BMW vermelho estacionado na calçada. Li Linghan sentou no banco do passageiro, mantendo a aura misteriosa intacta.
— Então, como eu te chamo, tio? Tem nervo, entrando no meu carro sem sequer perguntar aonde estou te levando. Não está preocupado de talvez não voltar vivo?
Li Linghan ponderou a resposta.
— Quanto mais você age assim, mais curiosa eu fico. Me diga, está de propósito se fazendo de frio, ou é assim desapegado por natureza?
— Só me chama de Irmão Han. Além disso, uma garota como você não deveria ter tanta curiosidade sobre um homem como eu.
— Você só tem medo de que eu me apaixone por você, não é?
A Senhorita explodiu em ondas de risada, o peito subindo e descendo com o som.
Tendo passado a vida cercada de pessoas que só se importavam com a influência do pai — fossem oficiais de alto escalão ou titãs dos negócios — aquele homem era, por comparação, notavelmente único.
Exatamente como Li Linghan suspeitara, ela o levou direto a um Covil Subterrâneo de Jogo.
— Seu pai também é dono deste?
— Mal. Os que minha família possui estão cheios de atores — pessoas perdendo de propósito pra mim ou me alimentando vitórias de propósito.
O Covil Subterrâneo de Jogo ficava sob uma garagem de estacionamento, guardado com segurança apertada; sem alguém pra garantir por você, a entrada era impossível.
Era discreto, sem entrada principal clara — tinha de se navegar a estrutura subterrânea de estacionamento para alcançá-lo.
Não era particularmente massivo, mas estava plenamente equipado.
Caça-níqueis, jogos de pesca — tinha tudo o que se esperava.
Como era noite, o lugar estava a todo vapor, fervilhando de barulho. Li Linghan seguiu a Senhorita numa volta pelo andar.
— Estas são as áreas casuais. Tem portas secretas levando a zonas VIP mais adiante, mas você não entra lá sem ao menos uma aposta de um milhão.
Lá dentro havia poker, pai gow, mahjong, dados e mais.
A variedade de jogos era ainda mais rica. Podia trazer o próprio grupo ou achar uma mesa com estranhos; a casa fazia fortuna só na comissão das apostas.
Li Linghan ainda não entendia por que ela o trouxera, agindo como se fossem velhos amigos.
E embora Li Linghan fosse mestre das Técnicas de Jogo, os avisos constantes do pai o mantiveram longe de jogar de verdade. Jogo era um caminho pra vício, e vício era um caminho pra trapaça.
A imagem do tio sendo cortado até a morte por trapacear permanecia queimada na memória.