Todos vocês renasceram. Se você não tem uma esposa adorável, não é demais lhe dar uma tigela — Capítulo 6: Tentando ser corajoso e comendo socos
— Um bilhete, escolha aleatória!
— Hã? Só um? — Xiao Can ergueu o olhar para Li Linghan.
— É, estou sem grana. Não trabalhei quase meia quinzena, então estou curto de dinheiro — disse Li Linghan despreocupado. — Só abrindo suas vendas do dia — cada centavinho conta, né? Heh…
Li Linghan pegou o bilhete, olhou em volta e disse com preocupação:
— A pandemia está quase acabando. Cuide-se.
Não podia dizer muito mais; Xiao Can ainda não era divorciada, e qualquer outra coisa poderia gerar fofoca.
Antes mesmo de Li Linghan chegar à porta, ouviu fracamente O Careca repreendendo Xiao Can.
A voz raspante estava cheia de raiva e desprezo:
— Dois malditos yuan? É essa toda a clientela que você consegue atrair? Com essa miséria patética, o que vamos comer? O que vamos beber?
Li Linghan sentiu o sangue ferver. Já não era um adolescente quente, então forçou-se a ficar quieto, só pausando na soleira.
Inesperadamente, O Careca escalou o berro:
— Sua mulher fedida, olha essa porcaria que você fez — nem um cão tocaria nisso! Com essa “habilidade”, fica atrás de homens selvagens? Sua existência é só um desperdício de espaço!
O temperamento de Li Linghan explodiu. Deu meia-volta e voltou furioso, apontando o dedo para a escuridão:
— Pode limpar essa boca? De quem diabos você está falando?
— Oh, então realmente tem um homem selvagem te defendendo — O Careca escarneceu ao sair do cômodo interno.
Na luz da loja da frente, Li Linghan finalmente viu a aparência completa daquele bruto de língua suja.
O homem era enorme, sólido como pedra, como um muro intransponível.
A cabeça raspada brilhava sob a luz, como se tivesse sido corroída por anos de maldade, irradiando uma aura fria e cruel.
Uma ferocidade selvagem se escondia na testa; o rosto era duro como ferro, com linhas angulares afiadas, e um sorriso cruel curvava os lábios — um olhar de desprezo total pelo mundo.
A regata preta esfarrapada e a calça jeans larga só enfatizavam a imagem imprudente e bárbara.
— Estou falando de você! E daí? Por que você entra na minha loja agindo de valentão? Quer que eu te derrube? — O Careca se postou diante dele; os dois homens travados numa troca tensa e explosiva de olhares.
Sentindo a situação azedar, Xiao Can correu para puxá-lo:
— Foi minha culpa! Por favor, não briguem! Não façam isso…
Ver Xiao Can implorar com tanta amargura fez o coração de Li Linghan doer. Embora não fosse tão volumoso quanto o gordo, mantivera anos de trabalho físico; ainda tinha músculo e força.
— Fecha a boca! Que tipo de homem é você, batendo numa mulher todo santo dia? Eu não quero confusão, mas você também melhor se cuidar. Eu não tenho medo de você…
Li Linghan estava blefando, forçando-se a dizer aquilo. Sabia exatamente onde estava, e capangas como aquele eram imprevisíveis; se cruzasse aquela linha, talvez não pudesse continuar vivendo naquele bairro.
— Vai se ferrar! — O Careca desferiu um gancho amplo; o punho direito esmagou o rosto de Li Linghan.
Pego de surpresa, Li Linghan não conseguiu esquivar. O golpe o fez tropeçar até a porta, a cabeça zunindo com um zumbido surdo e latejante — uma sensação que durou mais do que o atraso que sentira ao saltar do prédio.
Como dizem, um homem sábio não luta quando as chances estão contra ele. Percebendo que não era páreo, Li Linghan decidiu que, se não podia vencer, ao menos podia correr.
— Tá bom! Você só espere! Se tem coragem, não corre! Vai ver o que acontece quando eu voltar!
Li Linghan se levantou às pressas, cambaleando para longe numa tentativa covarde e desesperada de salvar a face.
De volta ao aluguel, ensopou uma toalha em água quente e a pressionou no rosto.
— Aquele cara bate como uma mula. Droga, isso dói… — murmurou consigo, segurando a toalha na bochecha direita enquanto deitava na cama, sacando o celular para pedir delivery.
Raramente pedia entrega. Tendo trabalhado no setor, sabia que comprar na loja era mais barato e as porções eram maiores. Delivery significava taxas de serviço, porções menores, e o restaurante ganhava menos enquanto a plataforma ficava com a parte do leão.
Mas as coisas estavam diferentes agora. Acabara de renascer; os empréstimos estavam sendo limpos, e ele tinha o suficiente para viver confortavelmente com um pouco a mais para si.
Depois do almoço, deitou no sofá, rolando vídeos curtos sem pensar, à beira do sono, quando uma batida rápida e agressiva partiu o silêncio.
Quem viria nestes tempos? Seria outra inspeção de lockdown? Li Linghan murmurou consigo, segurando a bochecha direita ao ir até a porta.
Abriu e encontrou Xiao Can parada ali, olhos cheios de lágrimas, segurando um saco de maçãs, em silêncio e atordoada.
— O que você está fazendo aqui? Anda, entra primeiro. Conversamos lá dentro.
O quarto era pequeno e transparentemente simples. Li Linghan a viu entrar e puxar a porta atrás de si.
— Quer beber alguma coisa? É… desculpa — pergunta idiota. Desculpa, só tenho água quente. Heh…
Xiao Can recusou às pressas:
— Não, não, só vim ver como você está. Foi minha culpa você ter apanhado; sinto muito… — Sentou-se, depois se levantou de novo para lhe oferecer as maçãs.
— Ei, é uma coisa pequena, não precisa mencionar. Mas, se você sai da loja enquanto ele está lá, ele não vai descontar em você quando voltar? — perguntou Li Linghan com preocupação genuína.
— Está tudo bem. Ele costuma tirar um sono longo ao meio-dia; se eu voltar rápido, ele não percebe. Mas e você? Apanhou à toa. Me sinto horrível. O rosto ainda dói?
Viu só? Aquela era a bondade de uma mulher gentil e bela. Mais alguns socos daqueles quase valeriam a pena.
Li Linghan sentiu uma alegria secreta brotar dentro. Faziam tantos anos que alguém não lhe mostrava aquele tipo de calor.
— Estou bem. Só está um pouco inchado. Vou fazer compressa quente, em poucos dias passa…
— Como você vai usar compressa quente? Isso é para contusão — tem que usar compressa fria nas primeiras 24 horas. Compressas frias ajudam a contrair os capilares locais para reduzir o sangramento… — Xiao Can falou sem parar.
Li Linghan só pôde assentir sem jeito. Nem sequer tinha geladeira naquele quarto, então não havia compressa fria possível. Jogou a toalha quente na pia, decidiu deixar pra lá e sentou-se de novo.
— Ainda dói? Ai não, tem um ferimento — rachou…
Enquanto falava, Xiao Can estendeu a mão em direção ao ferimento no rosto dele.
Por coincidência, no momento em que a mão dela pairava perto da pele, um “BANG!” ensurdecedor ecoou quando a porta foi chutada aberta.
Do corredor, foram flagrados num quadro comprometedor: a mão de Xiao Can ainda estendida, e Li Linghan reflexivamente erguendo o braço para bloquear.
— Uau, se eu não tivesse acordado, nunca saberia que você gostava disso, sua vadia! Rapazes, vocês todos viram — peguem ele!
Era o marido de Xiao Can, flanqueado por vários homens enormes. Olhando a situação, não havia saída.